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Mundo Ácido: A crítica (in)correta
de Sacha Baron Cohen
Originalmente publicado em www.aquirola.com.br
Controverso,
polêmico e com um senso de humor ferino, o ator
inglês, Sacha Baron Cohen, não poupa praticamente
ninguém em suas contundentes críticas
sociais. Em uma espécie de crítica reversa,
nos revela atitudes e pensamentos escondidos em cada
um de nós, causando paixão e ódio
por onde passa.
O mundo das artes sempre nos traz boas revelações
que nos fazem questionar conceitos e crenças.
Não é de hoje que tipos irreverentes fazem
sucesso e são alvo de críticas. O sucesso
acaba muitas vezes sendo alavancado pelas mesmas opiniões
desfavoráveis. Nos últimos anos o mundo
cinematográfico tem aprendido conviver com um
novo enfant terrible. Seu nome é Sacha Baron
Cohen, um inglês descendente de judeus que não
tem problema de dar vida a figuras caricatas, bizarras,
mas essencialmente críticas em sua essência.
Absurdos, escrachos, feridas expostas, ou mensagens
implícitas, fazem parte da crítica feroz
e sem rodeios do mundo de Sacha Baron Cohen. O homem
que já encarnou tipos variados vai, cada vez
mais, lapidando seu sucesso com temas e personagens
controversos. Baron Cohen já viveu o patético,
atrapalhado, mas carismático projeto
de rapper inglês Ali G, o repórter cazaque,
cara de pau e sem
medo de suas perguntas ácidas, Borat, e deu vida
e ganhou o mundo com o deslumbrado fashionista Brüno,
em busca pela celebração. Todos estes
tipos, cada qual à sua maneira, não tem
medo de suas personalidades marcantes, sem medo de censuras,
sem hipocrisias, e muito menos sem medo do que dizem.
O próprio Sacha Baron Cohen parece não
se sentir tão à vontade quando não
está caracterizado de um de seus personagens
ferinos. Na maioria de suas entrevistas à imprensa,
Baron Cohen não é ele mesmo, mas sim algum
personagem em destaque no momento. Quando de sua primeira
entrevista de cara limpa, para a revista Rolling Stone,
o ator inglês admitiu achar difícil dizer
o que pensa. Acho que você pode se esconder
por trás dos personagens e fazer coisas que seriam
difíceis sendo você mesmo. Ao contrário
de seus alter-egos, Baron Cohen é um pouco mais
escrupuloso, mas parece estar aprendendo muito com suas
criaturas. Um exemplo foi durante a apresentação
do Globo de Ouro de melhor filme comédia
ou musical em 2009, quando o ator fazia graça
com a crise econômica que também afetava
as celebridades. Em meio às gargalhadas da platéia
disse: ...até
Madonna teve que se livrar de um de seus assistentes
pessoais. Nossos sentimentos vão para você
Guy Ritchie.Qual é? Ele referia-se a então
separação do casal. A resposta veio em
forma de um silêncio incrédulo de alguns,
riso de outros e até algumas vaias. Este é
exatamente o mesmo tipo de reação para
seus filmes e suas criações. Amor ou ódio,
sem meio termo. O que mais fazem seus personagens, em
suas perguntas cretinas, que deixam suas vítimas
atônitas, é trazer à tona toda a
impaciência e intolerância de seus entrevistados,
revelando suas verdadeiras essências.
A crítica ferrenha aos preconceitos e situações
patéticas e absurdas do cotidiano são
uma constante nos filmes de Baron Cohen. Historiador
por formação, o ator teve boa parte de
suas pesquisas embasadas em diferentes formas de preconceito
e no anti-semitismo. Sua crítica reversa causa
desconforto e má interpretação,
principalmente de alguns radicais desavisados que vêem
um incentivo às manifestações separatistas
como a homofobia, a segregação racial
e o preconceito. Com expressões explícitas
de separatismo e intolerância, os personagens
interpretados por ele buscam despertar em cada espectador
os mesmos sentimentos preconceituosos vistos na tela
e que podem habitar em todos nós. É um
alerta de quanto hipócritas somos muitas vezes,
quando concordamos com as situações mostradas,
ou uma forma sarcástica e dura de mostrar as
tantas atitudes e demonstrações de violência
social que rodeiam nosso dia a dia.
Com Ali G nos trouxe um sujeito suburbano, que vive
com sua avó na zona oeste de Londres. Apesar
de sempre buscar ser o rebelde branco com espírito
negro. De pouca educação e fama de rebelde,
ele é um tanto ingênuo em seus questionamentos
e pensamentos particulares, às vezes infantis,
deixando seus pares confusos. Em geral tem um linguajar
incorreto e próprio, com dificuldade de soletração,
causando interpretações engraçadas.
Segundo Baron Cohen, Ali-G é uma paródia
aos jovens brancos privilegiados que tentam ter atitudes
negras. O personagem mistura a cultura negra e
jamaicana, principalmente baseada no reggae, hip-hop,
jungle e soul em uma salada cultural.
Borat é um anti-semita, homofóbico e preconceituoso
repórter do Kazaquistão que na versão
longa metragem, percorre os Estados Unidos em uma van,
mostrando os pontos de vista sócio culturais
do país. Através de suas incursões
em entrevistas bizarras e perguntas desconcertantes,
Borat revela contrastes culturais e atitudes. Sendo
Borat um pretenso anti-semita ele serve essencialmente
como uma ferramenta. Passando-se por anti-semita, ele
faz com que as pessoas baixem a guarda e exponham seus
próprios preconceitos, explica o ator.
Descendente
de um sobrevivente do Holocausto, e ele mesmo seguidor
das tradições judaicas, Baron Cohen pretende
com seu personagem expor o papel da indiferença
com que são tratadas algumas questões,
como o caso de demonstrações anti-semitas.
Um exemplo de seus questionamentos pode ser visto em
uma sequência de Borat, onde um grupo canta In
my Country There is Problem (Em Meu País
Há Problema). Baron Cohen explica: Ela
revela que eles são anti-semitas? Talvez. Mas
talvez revele que eles estavam indiferentes ao anti-semitismo.
Cohen é bem embasado e revela uma inspiração
em um ex-professor, citando o historiador, especialista
no Terceiro Reich, Ian Kershaw, que dizia que o
caminho para Auschwitz foi construído com ódio,
mas pavimentado com indiferença. Entre
entrevistas, perseguições e conhecendo
diferentes tipos anônimos ou célebres,
Borat revela um país desconhecido até
mesmo dos próprios estadunidenses.
O mundo da moda, das celebridades e da busca pelos
minutos de fama também são alvo de Baron
Cohen. O personagem gay, Brüno, é um apresentador
de um programa de moda, que assim como Ali G e Borat,
não mede palavras. Em suas entrevistas, o personagem
austríaco, tem o poder de deixar os entrevistados
completamente embaraçados em suas declarações
provocativas e afiadas, levando seus alvos às
contradições. Brüno, O filme, traz
mais demonstrações claras de uma crítica
reversa ao mostrar a luta do personagem pelo estrelato
e por seu espaço no mundo das celebridades, muitas
vezes nem tão célebres assim. Todo o esforço
é valido para galgar os degraus da fama, até
mesmo tentar mudar sua orientação sexual,
já que famosos como Brad Pitt e Tom Cruise são
heterossexuais. Em sua busca, ele tenta conviver com
tipos machistas e homofóbicos, levantando mais
uma vez a temática da intolerância. Antes
mesmo do lançamento do longa metragem, Sacha
Baron Cohen já era motivo de críticas
e protestos de diferentes segmentos, inclusive de militantes
gays que viram no personagem um incentivo ao preconceito
e não o contrário, como propõe
seu criador. Em Brüno, Baron Cohen revela um gay
estereotipado, que muitos acham bonitinho
ou engraçado, mas que quando abre
a boca e solta o verbo em suas perguntas ou colocações,
passa a ser indesejado por despertar as contradições
e a repulsa de muita gente, mascaradas de benevolência,
compreensão e aceitação.
Com seus tipos variados e de diferentes origens, Baron
Cohen parece tentar mostrar que o mundo está
repleto de personagens diversos. Independente de orientações
sexuais, crenças religiosas, classes sociais
ou preferências políticas. Bons personagens,
como os tipos de Baron Cohen, assim como bons filmes
tem por base uma boa idéia inicial que vão
sendo moldadas ao longo de seu desenvolvimento. Estes
tipos que nasceram
na TV inglesa chegaram às telas dos cinemas do
mundo para fazer graça, mas também para
questionar e fazer pensar. Com seu humor ácido
e sem meias palavras eles contestam e criticam.
Muitos tem sido os fracassos cinematográficos
de grandes idéias mal desenvolvidas ou administradas.
Por vezes, a idéia e a mensagem se perdem por
conta de clichês e comercialismos. Uma boa idéia
e um bom desenvolvimento podem, então, cair no
desagrado de muitos por sua crítica fria e incisiva.
No caso de Sacha Baron Cohen, o sucesso, não
no tocante àquela crítica a seus personagens,
mas de sua própria crítica de costumes
e comportamentos, parece estar bem apoiado e fundado
em uma equipe de produção que sabe transformar
suas idéias em algo concreto. Por conta de falsos
moralismos, ou por fazerem parte de convenções
não tão sadias, muitos preferem fechar
os olhos para absurdos que nos rodeiam todos os dias,
rechaçando uma crítica contundente e não
são bem vindos. Baron Cohen parece não
se importar muito com as críticas que recebe
e segue sua carreira em meio às polêmicas,
sendo comentado, fazendo sucesso e provavelmente já
pensando em suas novas armações contestadoras.
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